Sim, a dica de leitura de hoje é para crianças. Mas duvido que os adultos também não vão gostar e se identificar. Isso porque, embora as histórias do americano Shel Silverstein façam parte dos catálogos infantis, ele é um desses poucos autores que se pode afirmar serem, de fato, para todas as idades. Quem não se emocionou com o clássico A árvore generosa? É do autor deste livro que estamos falando!

Em A parte que falta, Silverstein aborda, com sua poesia hábil e sensível, a busca pelo autoconhecimento e pela completude. A metáfora se dá por meio da história de um ser circular com cara de pizza faltando um pedaço. A ele, falta uma parte. Otimista, ele se lança no mundo à procura de preencher esta lacuna. Durante sua busca incansável, faz uma pausa para cheirar uma flor, conversar com uma minhoca… À medida que descobre o universo ao redor – e também a si mesmo –, percebe que as relações interpessoais são muito mais complexas e delicadas do que pensava e que a felicidade quase sempre está dentro de nós mesmos – e não no outro.

O caráter minimalista de Silverstein se reflete também em seu traço. Com poucos elementos gráficos e usando apenas o preto, nos faz apreender sensivelmente toda sua filosofia: a liberdade é o bem maior que podemos possuir.

Na sequência, A parte que falta encontra o Grande O, conhecemos a história da parte que falta (uma espécie de triângulo com cara de pedaço de pizza sedenta por completar alguém). No novo livro, é a parte que segue em busca de alguém a quem possa completar. Mas uns não sabem nada sobre encaixe, outros não sabem nada de nada, outros já têm partes demais. Na verdade, ela até encontra um ser com encaixe perfeito, mas quem poderia imaginar que elas começariam a se desentender? Tudo muda quando encontra o Grande O. O ser completo lhe dá a dica: por que não tentar sozinha?

Se em A parte que falta Silverstein tematiza o amor próprio, em A parte que falta encontra o Grande O a palavra de ordem é superação: as mudanças pelas quais passamos ao longo na vida, as coisas que nos moldam e como nos deixamos moldar.

Uma bonita reflexão sobre acreditar em si mesmo e ir além, que nos faz pensar: até onde precisamos do outro para nos sentirmos completos? A resposta de Silverstein não deixa dúvidas: é preciso primeiro aprendermos a rolar sozinhos para então poderemos rolar juntos.

Um livro para crianças e adultos, completos e incompletos.

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A parte que falta e A parte que falta encontra o Grande O

Shel Silverstein

Tradução: Alípio Correia de Franca Neto

Formato: 18 x 21,5 cm

Páginas: 112