Quando Rosie decide encenar um grande musical, ela só precisa de um chapéu de plumas, um vestido elegante e sapatos de salto alto, provavelmente emprestados do guarda-roupa da mãe. Kathy vira Tcha-Tcharu, a dançarina árabe, ao vestir um camisolão e enrolar uma toalha na cabeça. O cenário é o quintal de casa, devidamente equipado com cadeiras dobráveis para acomodar a plateia: as crianças da vizinhança.

Tudo parece uma grande brincadeira. Mas, analisando a fundo, o faz-de-conta infantil tem uma importância singular no desenvolvimento cognitivo, físico, social e emocional das crianças. “Não estamos brincando. É um espetáculo de verdade”, responde Rosie a um dos colegas ao ser indagada sobre o que estavam fazendo. E, para as crianças, o faz-de-conta é, de fato, coisa séria.

Assumir papéis pressupõe vivenciar situações imaginárias pautadas pela imitação da realidade: mãe, médica, professora, cantora… No faz-de-conta, as crianças podem ser quem quiserem, já que aprendem a agir em função de um personagem e, a partir dele, vivenciam sentimentos e comportamentos pautados pelas regras sociais que conhecem. Fantasiar é, antes de tudo, uma oportunidade de socialização. E também de encontro com seu próprio mundo.

Ao brincar, a criança amplia suas possibilidades de se comunicar. É um momento de troca com seus pares (“Vamos perguntar à Rosie o que a gente poderia fazer”), de resolução construtiva de conflitos (“Devolva meu chapéu”, “Não devolvo”), de troca de ideias (“Tenho que ir apagar um incêndio. Vocês querem ir junto?”) e de interação (“Todo mundo quieto”, “Batam palmas, todos, e berrem viva!”).

Além de desenvolver seu potencial criativo, a brincadeira também permite à criança transformar a função dos objetos da forma que bem entender. Assim, porão pode ser camarim, cobertor vermelho pode ser disfarce, terra pode ser bolo de aniversário, panela pode ser disco voador.

Conhecido por contar suas histórias sob o ponto de vista da criança, levantando a bandeira da imaginação infantil, Maurice Sendak parece saber muito bem a importância do faz-de-conta e da atividade lúdica para a libertação e a imersão no mundo real: “Crianças vivem na fantasia e na realidade; elas vão e voltam muito facilmente, de uma forma que não lembramos mais como fazer”. Assim, que outro autor seria capaz de transformar suas personagens em bombinhas para uma barulhenta brincadeira de fogos de artifício? “Sou a maior bombinha vermelha do mundo inteiro e lá vou eu! BUMM! BUMM-BUMM-AUISHHHH!”

E lá vão elas. Fazendo de conta e sendo simplesmente crianças.