“Uma cantiga é uma canção. Mas pode ser também uma história. Cada um a retoma na sua vez e, sem se esquecer de nada do que foi dito, acrescenta a ela o que passar pela cabeça.” É assim que Blexbolex apresenta aos leitores a proposta de Cantiga: numa espécie de narrativa cumulativa, cada página traz uma ilustração e uma palavra que, somadas, nos contam o que uma criança encontrou, dia após dia, no retorno da escola para casa. O primeiro capítulo resume-se a três elementos: a escola, o caminho e a casa. Mas a cada novo capítulo – de um total de sete – a história é retomada, com a diferença de que, entre a escola e a casa, novas informações são introduzidas – um desconhecido, uma bruxa, ladrões… O que parecia um trajeto rotineiro revela-se uma grande aventura, na qual um homem atende a um chamado para resgatar a rainha, sequestrada por dois ladrões a pedido de um terrível e ambicioso vilão.

Cantiga reúne a maioria dos elementos temáticos típicos do conto maravilhoso tradicional – floresta, castelo, rainha, duende, vilão, tesouro –, mas apresentados de maneira contemporânea, não tradicional. Blexbolex vira tudo – literalmente – de ponta-cabeça: quando a bruxa entra em ação, lança um feitiço capaz de colocar texto e ilustrações de cabeça para baixo. Letras se embaralham e palavras e imagens chegam a desaparecer. Cabe ao leitor embarcar na aventura e completar as lacunas até a libertação da rainha sequestrada e o “viveram felizes para sempre”.

À experimentação e originalidade narrativa se somam ilustrações de encher os olhos, em cores fluorescentes, sem contorno aparente. É possível perceber a influência da serigrafia – área de formação do artista – no estilo inconfundível de suas imagens.

Um livro para ler mil vezes.

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Cantiga

Blexbolex

Tradução: Alexandre B. de Souza e Érika N. Vieira

Editora: Cosac Naify

Formato: 13 x 17,5 cm

Páginas: 280 pp. ilustradas