por Luciana do Amaral e Silva

Sou mãe de duas meninas, Maria Luiza (8) e Elis (4). A experiência do meu primeiro parto foi o que me motivou a buscar na segunda gravidez um parto domiciliar. Por isso não posso falar de um sem mencionar o outro.

A primeira gravidez

Na primeira gravidez, fiz todo o pré-natal com uma médica “super a favor do parto normal”, mas que não pôde estar presente no dia em que pari a Malú. Estava com 41 semanas de gestação, contrações razoáveis, nove dedos de dilatação. Mas, assim que entrei no hospital, senti que sairia dali com uma cesárea. A cada exame de toque, as notícias tornavam-se mais desanimadoras para a minha expectativa de ter um parto normal. Até que o médico constatou:

– A bebê fez mecônio [substância pastosa que constitui as primeiras evacuações do recém-nascido]!

Eu e o Marcelo, meu companheiro na época, nos olhamos e eu indaguei, bem baixinho e tímida:

– Mas mecônio não é necessariamente indicação para cesárea, né?

O “bendito” cardiotoco (aparelho que mede os batimentos do bebê) não apontava nenhuma irregularidade. Sim, eu já havia estudado um pouco sobre parto. O médico, então, disse incisivo que o mecônio já estava no grau 3. Havia algum sorriso discreto em sua boca ao me falar isso (pelo menos eu vi!). Pergunto como ele sabe e, nesse momento, me surge uma agulha imensa:

– Vou furar pra você ver.

Foi quando me entreguei. Ver o mecônio na água da bolsa me desesperou. Como ainda tínhamos que esperar o anestesista dele chegar, me agarrei a essa última esperança: quem sabe eu e minha pequena nos acertávamos com o relógio e a agenda do obstetra e teríamos nosso parto normal? Nesse momento, me separaram do meu companheiro e fiquei lá, sozinha com muitas dores. Quando a bolsa estourou, a dor da contração aumentou muito. Nem toda reza ajudou quando disse ao médico que queria ir ao banheiro, soltando gazes aleatoriamente, ele pulou da cadeira como que num susto, por tamanha ousadia minha e da pequena em insistirmos em evoluir para o parto normal. Mas aí chegou o anestesista…

Quando minha pequena nasceu, o primeiro consolo que tive do médico foi:

– Viu, a menina é esperta, estava com o cordão enrolado no pescoço, por isso não descia.

Só consegui suspirar fundo pela mentira, pois sabia que isso também não era impedimento para o parto normal, e agradeci por estar com ela nos braços. Ah, também gostei porque tocava Beatles na hora e tinha umas luzinhas coloridas na sala!

Fui naquele hospital a única mulher a tentar um parto normal, me sentia quase um E.T. Percebi a solidariedade de algumas enfermeiras na troca de olhares, mas infelizmente não deu. Demorei anos para superar esse roubo do meu parto, sentindo-me frustrada e impotente.

Segunda gravidez

Quando fiquei grávida pela segunda vez, eu e o Marcelo decidimos que a Elis nasceria em uma casa de parto, caso tudo desse muito certo, pois as casas de parto fazem algumas exigências para o parto natural. Na festa de aniversário de 4 anos da Malú, uma amiga querida, a Raquel, me perguntou se eu já havia pensado num parto domiciliar:

– Acho que é a sua cara – ela afirmou.

Ela me passou a indicação de sua parteira e lá fui eu para a primeira consulta. Conhecer a Vilma Nishi foi algo muito forte para mim. Pouco a pouco, fui percebendo que aquele processo era algo que me transformaria bem profundamente. Responsabilizar-me pelo parto sendo a mulher o centro do processo é romper com uma estrutura – e é trabalho! Se não me engano, foi a Vilma que me falou que parto é trabalho, e é mesmo. Optamos, dessa vez, por não falar muito para as pessoas sobre nossa decisão. O parto é uma escolha da mulher, mas o seu sucesso vai além. O apoio e a confiança daqueles que estão próximos a nós é fundamental. Tive muita sorte, pois meu companheiro colocava mais fé em mim às vezes do que eu mesma, isso também me fortalecia demais. Além disso, tive acesso a uma parteira, a casas de partos e grupos de apoio pela internet.

Fui, então, me apropriando do processo. Fazia exercícios, estudava e me concentrava na minha escolha. Lembro que ouvia de várias pessoas que o parto natural depois de uma cesárea é muito perigoso, que o útero pode romper e blá, blá, blá. Eu não renegava a cesárea, mas sabia que só recorreria a ela se fosse mesmo necessário.

A Vilma é uma parteira das antigas e trabalha com uma simplicidade que eu adoro. Ela atua sozinha e não exige nada no parto, somente a presença da mãe, e isso foi o mais difícil! Estar ali não apenas com o corpo (como se isso fosse possível), mas com tudo que me compõe, inclusive o medo e as inseguranças, não foi fácil.

O parto durou quase 24 horas, não o expulsivo, quando as contrações ficam bem intensas, e, aliás, confirmei minha suspeita. Meu corpo funciona assim: o colo demora a baixar, apesar da dilatação, e, quando vêm as contrações expulsivas, ele baixa rapidinho, daí os gazes involuntários (que aconteceram no primeiro parto) e a bebê coroando, momento em que ela começa a passar o canal vaginal. A Elis nasceu com uma volta de cordão umbilical no pescoço, assim como a Malú. Escolhi para acompanhar o momento as duas mulheres da minha vida, minha mãe e minha irmã, e o Marcelo. O parto não foi somente o meu renascimento, mas de todos nós. Lembro que estava um dia lindo, verão de fevereiro. À tarde caiu uma tempestade com vento tão forte que destelhou parte da casa e fez com que a chuva que caía formasse uma cachoeira bem no meio da minha sala, onde a Elis nasceu. Uma aventura, sem dúvida.

Tive a possibilidade de sentir, viver e perceber meu corpo e o processo do parto de forma consciente. Senti a cabecinha da minha filha dentro de mim quando coroou, vi a cara de espanto e a emoção do Marcelo ao ver e sentir a pequena coroando em mim, coordenei minha respiração e as contrações, com o auxílio da Vilma, pude sentir e fazer força de acordo com a minha intuição. Sim, nós sabemos parir. Isso me tornou mais consciente sobre mim mesma. Amamentei minha filha ainda com cordão umbilical, enterrei minha placenta no quintal e depois plantei um mamoeiro em cima dela, que não vingou, aliás. A vida real é assim, né?

A Elis não chorou em nenhum momento. Foi acalentada por todos desde que saiu de mim. Nunca vou esquecer a expressão de emoção e o choro de todos que ali estavam. Era algo que nos ligava e nos tornava mais humanos. A luz e o brilho daquela madrugada eu nunca mais consegui repetir, e nem o prazer que experimentei naquele momento. Sim, parir é demasiadamente animal e prazeroso. Naquele momento fui plena como poucas vezes, e sinto que o mesmo aconteceu com todos que ali estavam. Não há como ver a vida igual depois dessa experiência. Lembro que a Vilma disse para nós com ar de satisfeita:

– Pois é, é isso que eu faço na vida.

E então entendi da onde vinha a beleza que sempre vi naquela mulher. O parto é algo potente e transformador, não há como continuar a ver a vida de forma superficial quando se passa por inteiro por um processo tão potente. Parir é nos reconectarmos com a natureza de que somos feitas.