por Natália Thimotheo Lourenção

Meu nome é Natália, estou com 34 anos e sou mãe do Vicente, de 3 anos e 10 meses. Assim como eu e o Bruno, pai dele, o Vicente possui uma alimentação vegetariana.

Após anos de “ensaio”, em 2011 fiz a opção de tornar-me vegetariana. Comecei por reduzir o consumo de carne vermelha, depois de frango, até, por fim, de peixe, enquanto lia muitos artigos e assistia a alguns documentários sobre o tema. Hoje, creio que esta foi uma das melhores escolhas que fiz em minha vida.

Sim, uma escolha ideológica, que perpassa por questões ambientais, de severas críticas ao sistema capitalista que movimenta a indústria da carne no mundo, e principalmente pela desrespeitosa e cruel relação que o homem estabelece com a vida dos animais, por vezes hipócrita, quando escolhe quais animais devem ser amados (os de estimação) e quais animais podem servir de alimento. Meu companheiro na ocasião, o Bruno, também tinha questionamentos semelhantes, e então decidimos juntos parar de comer carne.

Em outubro de 2012, eu engravidei do Vicente. Se antes eu já tinha que aguentar o bombardeio de críticas à minha escolha, com a gravidez, isso só piorou. Havia quem afirmasse que meu filho estava fadado a ser uma criança doente, tudo por minha culpa. O ginecologista fazia colocações parecidas e pedia exames de sangue completos mensalmente, parecia até que queria encontrar alguma anormalidade. Lembro-me de que uma vez ele até deixou escapar: “Mas nem uma anemiazinha!”. Sorte minha ter há alguns anos o acompanhamento de um homeopata, que esclarecia não somente questões relacionadas à nutrição do meu corpo e daquele bebezinho que estava em meu ventre, como também da gestação de modo geral.

Tudo ocorreu tranquilamente durante a gestação. O Vicente nasceu, se alimentou de leite materno exclusivamente até 6 meses e, depois disso, comecei a introduzir a alimentação vegetariana, com base em raízes, legumes, verduras, cereais, grãos, sementes, frutas – tudo, menos carnes. O aleitamento materno só foi retirado de sua dieta com 1 ano e 2 meses, novamente pela falta de orientação e acolhimento médico. Certamente se fosse hoje, teria estendido a amamentação por mais tempo.

Quando o Vicente entrou na creche, com 7 meses, eu e o pai dele fomos orientados de que não seria possível oferecer refeições sem carne para ele, a menos que houvesse uma prescrição médica. E, mesmo sem ter nenhum tipo de intolerância alimentar, desde então ele tem uma receita alegando que ele possui “alergia a proteínas derivadas de carne animal”. Infelizmente, vivemos em um país onde o desrespeito às diferenças alimentares nos obriga a optar pela ilegalidade.

O Vicente come muito bem, tem um apetite invejável e adora legumes e frutas, o que, infelizmente, não é algo muito comum em crianças da idade dele. Adora os momentos das refeições e também sente prazer em comer um bolo, um biscoito ou até mesmo uma balinha (alimentos que após os dois anos começaram a ser inseridos ocasionalmente em sua dieta).

Com exceção da alimentação produzida na minha casa e na casa do pai do Vicente, dificilmente os outros ambientes sociais não apresentam carnes em seu cardápio (há quase sempre pouca ou nenhuma oferta vegetariana). Mas, mais do que essa questão cultural, a nossa grande dificuldade é a pressão tamanha com que temos de lidar e a quantidade de vezes que ouvimos frases do tipo: “Mas esse menino precisa comer carne”; “Coitado, vocês estão privando ele de algo essencial”; “E as proteínas dele, como ficam?”; “Ele não está doente hoje, mas certamente vai ficar”.

Todas as crianças do mundo adoecem, ficam gripadas, com virose, mas, quando acontece com o Vicente, sempre alguém tem a infelicidade de dizer: “Com certeza ficou assim porque não come carne, coitado!”. Se uma criança não come abobrinha ou quiabo, manga ou laranja, ninguém questiona se ela ficará com falta de vitaminas C e A, por exemplo. Acham até normal a criança não comer nada “verde”.

Tudo por conta da falta de informação. As pessoas não sabem que proteína, ferro, vitamina B12, zinco e tantos outros nutrientes estão presentes em variadas fontes alimentares, e não apenas nas carnes. O Vicente ingere todas elas. Ou seja: é absolutamente possível uma criança viver de forma saudável sem comer carne.

Há um ano, mais ou menos, o Vicente tem manifestado desejo de experimentar alimentos a base de carne, e eu já imaginava que este momento chegaria. Minha postura tem sido a de permitir que ele experimente, mas sempre orientando-o com relação a todas as questões que esse consumo envolvem.

As crianças normalmente desconhecem a procedência da carne. Não sabem que o bife no seu prato é parte de uma vaca, que a coxinha contém galinha e que a salsicha, que elas adoram, é uma mistura de restos de tantos animais com antibióticos de todo tipo. Por que não falar disso com elas?

Meu relato pretende compartilhar minha experiência e também mostrar que eu e Vicente somos saudáveis e vivemos muito bem sendo vegetarianos. Esse tabu social, assim como outros, pode ser combatido se falarmos mais sobre isso.