Textos de Vera Campaner e Raquel Franzim publicados originalmente em: https://www.sescsp.org.br/online/artigo/11677_BRINCADEIRA+SEM+BRINQUEDO

Não há necessidade de um tablet, boneca ou carrinho para que a diversão tome conta. O fato de simplesmente estar num lugar onde é possível a interação com outras crianças e adultos, como um parque ou praça, já estimula a imaginação de meninos e meninas que, em pouco tempo, criam jogos e brincadeiras. Mas será que o direito de brincar, assegurado pela Constituição Brasileira e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), está sendo exercido? A artista e educadora Vera Campaner reforça a importância desse momento de lazer e, também, de desenvolvimento. “Em todo o mundo, especialistas da área infantil defendem a ideia de que o brincar livre é fundamental no aprendizado da criança e que reflete profundamente na vida adulta.” Para isso, a opção por brinquedos industrializados deve ser reavaliada, segundo a pedagoga e especialista em educação infantil Raquel Franzim, do Instituto Alana. “Menos brinquedo não é sinal de desigualdade de condições de desenvolvimento. Impacto negativo no desenvolvimento é ter menos possibilidade de interagir com os pais, com outras crianças e com a comunidade a qual se pertence.” Sendo assim, o que é a brincadeira sem brinquedo e que benefícios ela é capaz de gerar?

A imaginação no desenvolvimento da criança

por Vera Campaner

Muitos pais, na atualidade, têm se empenhado em proporcionar a seus filhos o acesso à educação formal e a atividades extracurriculares, acreditando que isso seja o suficiente para a formação da prole. No entanto, quando olhamos para a geração que nasceu na era dos tablets, smartphones e internet, constatamos que o brincar livre, e em família, está limitado ou quase suprimido do cotidiano das crianças, comprometendo, assim, o pleno desenvolvimento delas.

De fato, nas grandes cidades, parte desse comportamento se deve à falta de espaços destinados à criança dentro de casa ou em espaços públicos. E mais ainda: da pouca disponibilidade de tempo de convivência dos pais para com seus filhos. O brincar livre é muito pouco explorado pelas famílias e, no entanto, é um facilitador para a interação da criança em seu meio. Um momento para os pais estreitarem vínculos sendo participativos na vida dos filhos.

Em todo o mundo, especialistas da área infantil defendem a ideia de que o brincar livre é fundamental no aprendizado da criança e que reflete profundamente na vida adulta. A partir destas reflexões, eles chamam a atenção para que os pais criem um tempo e um espaço definido para que a criança possa brincar livremente e, de preferência, em sua companhia durante a brincadeira.

Diante da atual cultura de muitos brinquedos e poucas brincadeiras, esses especialistas discutem a importância do brincar sem brinquedo, do brincar lúdico, onde o estímulo à sensibilidade e à imaginação constrói valores capazes de transformar a vida.  Mas o que é o brincar livremente?

Brincadeira livre

Na brincadeira livre tudo é possível e a imaginação da criança é seu maior combustível. Um pedaço de pano pode se transformar em uma capa voadora de super-herói. É um canal para ela representar o que vê em seu interior. A partir da perspectiva da brincadeira do “faz de conta”, a criança reinventa a própria realidade, vivenciando diferentes papéis e assim estabelece ligações sobre quem é e o que pode vir a ser.

Sem dúvida, o lúdico é a vivência em que muitas situações do cotidiano da criança são reelaboradas, possibilitando a interpretação do real de acordo com seu desejo. Essas ações são fundamentais para a atividade criadora da criança. Brincando, meninos e meninas aumentam sua independência, estimulam a sensibilidade visual e auditiva, valorizam a cultura popular, exercitam sua criatividade, socializam suas emoções e a necessidade de conhecerem e reinventarem. Dessa maneira, constroem o próprio conhecimento.
 E como estimular o interesse da criança para a brincadeira sem brinquedos? Os pais podem, por exemplo, incentivar a curiosidade dos filhos. O simples olhar para um pequeno inseto sobre uma planta, ou a observação do formato das nuvens, pode ser um estímulo para criar uma brincadeira particular entre familiares. Valorizar aquilo que a criança faz também é um estímulo.

Quando, por exemplo, a criança faz um desenho a sua maneira, ela deve ser encorajada a explorar ainda mais sua criação. Uma caça ao tesouro criada dentro de casa, ou num jardim, também pode estimulá-la a enfrentar novos desafios. Cantar uma canção juntos, colher pedrinhas em um parque, fazer um castelo de areia são brincadeiras que aguçam na criança o ato de fazer.

Diferentes interesses facilitam a criação de brincadeiras que exploram o desconhecido e agregam valor àquilo que a criança faz. No incentivo à imaginação, uma cabana de lençol ao redor do sofá transforma a sala em uma floresta onde um macaco solta um grito.

Aos pais, faz-se necessário reaprender a brincar com seus filhos, presenciando, verdadeiramente, a brincadeira, o que reforça a cumplicidade e a afetividade entre ambos. Isso se reflete na maneira como os filhos passam a admirar os pais e a confiar neles. Um movimento recente proposto pelo escritor Carl Honoré – slowparenting (pais sem pressa, em livre tradução) – vem ganhando apoio no Brasil como uma filosofia contemporânea na educação das crianças.

Para impactar positivamente a vida dos filhos, os adeptos desse movimento valorizam a relação sem a pressa de inseri-los no mundo competitivo e sem acelerar seu desenvolvimento.

Brincadeiras antigas x brincadeiras atuais

Comparar brincadeiras antigas com as atuais tem provocado uma grande discussão. No passado, os brinquedos quase não tinham tecnologia e o brincar incluía se divertir com o que estivesse disponível. Brincar com panelas, colheres, tampas e outros objetos da casa fazia parte do universo das brincadeiras. Com o passar dos anos, e em grande parte devido à urbanização, alguns costumes se perderam e as brincadeiras se modificaram.

Nesse sentido, a memória como fonte de resgate de brincadeiras tradicionais pode ser um incentivo para as crianças experimentarem divertimentos que fizeram parte de outras gerações. Quando os pais compartilham a lembrança de suas brincadeiras preferidas com seus filhos, isso pode ser prazeroso tanto para os adultos quanto para as crianças.

Não existe uma resposta pronta para conduzir a criança em desenvolvimento. Porém, reflexões como estas ajudam os pais a entender melhor a si mesmos e auxiliar seus filhos no aprendizado da vida como um todo. No final, colher experiências do brincar livre garante a meninos e meninas um desenvolvimento mais pleno e repleto de sonhos a serem realizados.

Quando os pais compartilham a lembrança de suas brincadeiras preferidas com seus filhos, isso pode ser prazeroso tanto para os adultos quanto para as crianças.

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Uma aposta na força criativa de crianças e jovens

Raquel Franzim

Crianças são muito ativas e curiosas. Inventam brincadeiras o tempo todo. Brincar é uma linguagem, expressão do ser humano que encontra na infância um período propício para pulsar. Ao brincar, a criança não pensa se sua ação terá alguma finalidade ou se aprenderá algo. Está aí o valor: quanto mais livre, e quando o brincar não tem nenhuma obrigação de aprendizado, mais criativo se é.

A brincadeira se dá no espaço e no tempo. Por isso, é importante que as famílias garantam tempo em agendas saturadas e espaços amplos, ao ar livre, onde a criança possa explorar e se mover com liberdade. De preferência, espaços como parques e praças, onde há interação com o outro.

Aos adultos cabe o papel de confiar na criatividade de filhos e alunos. Apostar na criatividade das crianças é aprender a não interferir, a olhar e a observar. É preciso aprender com elas as variadas formas de brincar, de solucionar os desafios do corpo, dos materiais, dos espaços, das regras e do conviver com os outros.

Se espaços comunitários oportunizam a conexão com o outro, o brincar livre também se nutre da memória de brincadeiras passadas de geração em geração. E algumas delas só ocorrem ao ar livre e na interação: pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão, pique-bandeira, queimada, pular corda. O mais interessante das brincadeiras tradicionais é que são acessíveis, inclusivas (para diferentes idades e gerações) e adaptáveis (praticadas com pouco ou nenhum recurso). Isso revela que as crianças não precisam o tempo todo de brinquedos: elas têm potencial para criar as próprias brincadeiras.

O brincar livre, fora de espaços fechados, beneficia tanto a saúde física quanto a mental e social de crianças, jovens e adultos. Há evidências científicas que apontam para sensação de bem-estar, melhora dos hábitos alimentares, menor propensão à obesidade, fortalecimento das relações sociais e fomento ao aprendizado. Há ainda uma aprendizagem essencial: cultivar e amar a natureza que as cerca. As crianças criam laços afetivos com lugares, pessoas e comunidades. Dessa forma, constroem a sensação de pertencimento a uma comunidade.

Direito de brincar

Brincar é um direito [assegurado pela Constituição Brasileira e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente] que deve estar garantido na rotina das crianças e de jovens. A casa, a escola e os centros de convivência têm uma responsabilidade muito grande em proporcionar materiais de diferentes qualidades sensoriais, aproveitando a rica flora e natureza ao redor. Como explica a educadora Luiza Lameirão em seu livro Criança brincando! Quem a educa? (Ed. João de Barro, 2010): “A grandeza da imaginação depende da gama diferenciada de vida perceptiva que ela [a criança] desenvolveu, concomitante a sua capacidade de movimento”.

Muitas brincadeiras são criadas pelas crianças com a força da imaginação e com recursos simples e inusitados que as cercam. Como materiais e objetos do dia a dia (panos, panelas, vassouras, travesseiros etc.) e elementos da natureza. Por isso, crianças construtoras de brinquedos também representam outro argumento de que é possível brincar sem brinquedos.

O projeto de pesquisa, intercâmbio e difusão da cultura infantil Território do Brincar, idealizado por David Reeks e Renata Meirelles, e co-realizado pelo Instituto Alana, testemunhou algo que muitos acreditam não acontecer mais: crianças construindo seus próprios carrinhos, barcos, casinhas, bonecas. Isso não é coisa do passado. Mas para que isso aconteça, é necessário dar tempo à criação.

A aceleração e a fragmentação do tempo são grandes desafios assim como a cultura da limpeza e da organização. Ansiosos por ensinar as crianças a arrumar “a bagunça”, desmancham-se pesquisas e construções que as crianças acabaram de iniciar. Ou seja, é preciso aceitar outra vivência do tempo e um pouco de caos e desordem.

Menos é mais

Não se trata de achar que brinquedos prontos podem atrapalhar a imaginação. A criança sempre encontra uma forma de interagir com o brinquedo que tem à frente, mesmo quando ele busca representar a realidade – como brinquedos que falam e andam. Nos anos em que fui professora, observei as crianças dando outros usos e soluções para brinquedos que vinham prontos.

Cortar o cabelo das bonecas; desmontar carros para, em seguida, reconstruí-los, transformar móveis de casinha em engenhocas. Brinquedos industrializados representam a crença dos adultos de que as crianças não são capazes de imaginar, de criar e de reinventar por conta própria. Bombardeados pela publicidade, sem perceber, relacionamos a felicidade de crianças e jovens com coisas que compramos para eles.

A ideia de que é preciso brinquedos para brincar não é fruto espontâneo do pensamento dos adultos. Quem é pai, mãe ou educador sabe da influência da publicidade nas escolhas e brincadeiras das crianças e como ela alimenta o pensamento de que é preciso consumir brinquedos. Em agosto de 2016, uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, encomendada pela Aliança de Promoção da Saúde (ACT), indicou que 60% dos brasileiros são contra a publicidade infantil.

Menos brinquedo não é sinal de desigualdade de condições de desenvolvimento. Impacto negativo no desenvolvimento é ter menos possibilidade de interagir com os pais, com outras crianças e com a comunidade à qual se pertence. Precisamos aprender a olhar para a experiência criativa da criança. Só assim, iremos entender que menos é mais na educação de crianças e jovens. O brincar sem brinquedos industrializados possibilita a invenção de seus próprios brinquedos ou ainda a construção de novos. Quer força criativa maior do que essa?